Somos também um pouco daquilo que lemos

Quando fiz a disciplina de Literatura Oriental, com a mesma professora Flavia Ramos, eu já havia escrito um texto sobre “leituras antigas e marcantes”. Tentei não me repetir, mas em alguns momentos foi meio inevitável.

Neste semestre estou fazendo tanto Biblioteca Escolar quanto Literatura Infantil. São duas disciplinas que provocam muita nostalgia.

Dos 17 anos que morei em Esmeralda, 13 foram vividos dentro da escola estadual. Comecei a estudar quando ainda não tinha cinco anos, fiz dois anos de jardim de infância, depois os 11 dos então chamados primeiro e segundo graus. Por mais que a memória pregue peças à medida que vamos envelhecendo, muitas cenas parecem ter acontecido ontem.

Em minha casa sempre houve uma estante com livros. Entre eles, algumas coleções de livros bonitos feitos para atrair a atenção das crianças. Nas minhas memórias mais antigas não encontro aquela de alguém lendo histórias para mim ou para minha irmã. Talvez minha mãe, que lecionava muitas horas por semana, tenha lido histórias daqueles livros grandes e hoje gastos de contos de fadas, mas infelizmente não são essas as lembranças que me vêm à mente quando combino infância e leitura.

Lembro-me de ir à biblioteca com meu irmão mais velho, lembro-me da fichinha verde de controle da data de empréstimo e devolução, lembro-me nitidamente da disposição das estantes na sala grande da prefeitura em que ficava a coleção. Ali, entre as janelas, ficava a coleção infanto-juvenil. Lembro-me, claro, da dona Marli, que por muitos e muitos anos me recebeu com um sorriso no rosto. Ainda hoje sinto um quentinho no coração quando penso nela e nos livros tão bem cuidados da biblioteca municipal.

Antes de escrever sobre os livros, sou tomada pelas lembranças de outra biblioteca. Aquela sala cheira de livros era vizinha da minha, a do jardim de infância, mas naquela época, aquele lugar não parecia ser destino para criança tão pequena. Acho que fui pela primeira vez à biblioteca do colégio somente depois de aprender a ler, mas quando isso aconteceu, aquele lugar apertado passou a fazer parte das minhas manhãs. Morando em uma cidade pequena, eu podia ir sozinha trocar o livro lido por uma história novinha em folha.

  Um dos primeiros “lidos” foi Ida e Volta, de Juarez Machado. Como este livro me fascinou. Como podia existir uma história tão completa? Como o dono daqueles passos conseguia fazer mil coisas num dia só. Eu me imaginava percorrendo aquele caminho. O livro, relido nesta semana, me traz as melhores lembranças. Eu nem sabia, mas entre as leituras daquela época estavam livros de escritores ilustres, como Mario Quintana (Pé de Pilão com aquela capa rosa forte) e Erico Verissimo (O urso com música na barriga, As aventuras do avião vermelho e Os três porquinhos pobres).

Uma das coleções de capa dura mantidas na estante de casa era composta de histórias bem brasileiras, como Negrinho do Pastoreio e Mula sem Cabeça. Esses livros continuam por lá. Quem sabe um dia as sobrinhas se interessem por eles. Nem todas as histórias eram bonitas e alegres, como não ficar impressionada com A pequena vendedora de fósforos? Nos grandes livros de contos de fadas havia outras que assustavam. Para relaxar só apelando mesmo para algum dos gibis herdados de um tio.

A leitura sempre fez parte da minha vida e da dos meus irmãos. Não tivemos o exemplo de nossos pais, que pouco liam, mas eles sempre nos ofereceram livros e incentivaram as visitas à biblioteca. Felizmente tivemos acesso a duas boas bibliotecas. Mesmo que o acervo não fosse enorme, elas atendiam – e muito bem – às necessidades de seus públicos-alvo. Eu não consigo imaginar como teria sido uma vida sem os livros na infância e sem as visitas constantes às bibliotecas.

Em algum momento comecei a ler a série Vaga-lume. Eu tinha um desejo secreto de ler todos os livros na ordem em que apareciam na contracapa. Não havia todos na biblioteca, mas aos poucos fui batendo minha meta. Desses, os mais marcantes foram Éramos Seis, Açúcar Amargo, A árvore que dava dinheiro e todos os de Marcos Rey. Havia ainda outras coleções, mas, apesar de me lembrar do hábito de trocar quase diariamente o livro na biblioteca, os títulos hoje me fogem. Havia os de Pedro Bandeira e alguns outros mais que de vez em quando me vêm à mente, como Pai, me compra um amigo, de Pedro Bloch.

Durante os últimos anos de colégio fiz um estágio em um banco. O ritmo de trabalho e de estudos acabou me deixando com pouco tempo para a leitura, mesmo assim me lembro de conseguir ler Luiz Antonio de Assis Brasil e obras de alguns outros gaúchos. As idas à biblioteca, infelizmente, diminuíram, sendo retomadas apenas no primeiro ano de faculdade. Durante alguns anos as leituras foram poucas, mas sempre que consegui tive um livro nas mãos.

Hoje em dia, ler faz parte das atividades obrigatórias da minha rotina. Sempre estou lendo alguma coisa. Procuro me dedicar a apenas um livro por vez. Há dois anos comprei um kindle. Isso tem me ajudado a transportar os livros de maneira mais fácil, assim como comprá-los rapidamente.

A leitura é parte de mim. Quem me conhece, sabe. Acredito seriamente que somos feitos também daquilo que lemos.”

2 comentários sobre “Somos também um pouco daquilo que lemos

  1. Rafaela, bom dia! Gostei muito do seu BLOG, parabéns. Sou de Goiânia e quero muito, muito, muito mesmo fazer um curso de Biblioteconomia (Graduação ou Técnico), mas para mim seria melhor EAD. Aqui só tem a Universo, mas não sei se é bom o curso lá. Onde você faz não tem algum Polo de Apoio aqui por perto? Não é possível cursar 100% online? Estou um pouco perdida tentando achar uma boa e confiável Instituição. Já tenho 34 anos e agora que vou realmente fazer o que sempre quis, por isso tenho uma certa urgência. Se puder me passar algumas informações, ficarei muito agradecida! 🙂

    Roberta Navarrete
    (robertarn25@gmail.com)

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    • Oi, Roberta! Obrigada pela mensagem.
      O curso é oferecido em formato em ead, mas quatro vezes por ano vamos ao Rio Grande do Sul para as provas (abril, junho, setembro e novembro). Existem alguns polos, mas somente na região da Serra Gaúcha. Acho que o curso só tem autorização para fazer as provas no estado.
      Infelizmente não tenho conhecimento sobre outros cursos ead. Não sei se existem cursos totalmente on-line, creio que o MEC sempre determina que as provas sejam presenciais. Entendo que é difícil o deslocamento, mas compensa viajar tantos quilômetros, pois temos a oportunidade de conhecer os professores e os colegas pessoalmente.
      Não é fácil realizar um curso ead, mas vale a pena.
      Boa sorte. Qualquer coisa, é só escrever.
      Abraço,
      Rafaela

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